Os lucros das empresas brasileiras cresceram no segundo trimestre, mas o avanço dos resultados não encontrou o mesmo entusiasmo na Bolsa. Pelo contrário: as ações do Ibovespa caíram, em média, 1,32% no pregão seguinte à divulgação dos balanços, em uma temporada marcada por uma reação especialmente negativa dos investidores.

A punição não ficou restrita às empresas que decepcionaram. Os papéis de companhias que frustraram as expectativas recuaram, em média, 2,69%, enquanto até aqueles que apresentaram surpresas positivas caíram 0,12%. O mercado intensificou a penalização aos resultados ruins e deixou de premiar quem entregou números acima das projeções.

Os dados fazem parte do relatório “Temporada de resultados do 2T26 — Uma temporada fraca de resultados no Brasil”, da XP, assinado pelos estrategistas Fernando Ferreira, Raphael Figueredo, Caio Souza e Antonio Mello. O levantamento reúne dados das empresas acompanhadas pela casa e analisa também a reação das ações que integram o Ibovespa.

O quadro tem uma explicação que vai além dos balanços. Os resultados foram divulgados em uma Bolsa já pressionada pela saída de capital estrangeiro, pelo aumento da volatilidade ligada às eleições e por um desempenho inferior ao dos mercados globais.

 

Mercado pune decepções — e deixa de premiar surpresas positivas

No dia seguinte à divulgação dos resultados, as ações do Ibovespa tiveram queda média de 1,32%, ante recuo médio de apenas 0,14% nos cinco trimestres anteriores.

A diferença se torna ainda mais clara quando as empresas são separadas pelo desempenho frente às expectativas. As companhias que ficaram abaixo das projeções sofreram queda média de 2,69%. Já aquelas que superaram as estimativas tiveram retorno médio de -0,12%.

Nos cinco trimestres anteriores, as surpresas positivas haviam sido acompanhadas, em geral, por valorização das ações. No 2T26, esse prêmio desapareceu.

Segundo a XP, o período terminou como a temporada com as reações de mercado mais fracas dos últimos seis trimestres, com maior punição às decepções e ausência de recompensa às surpresas positivas.

 

Lucros cresceram, mas avanço foi concentrado

A reação negativa ocorreu mesmo com crescimento dos resultados no agregado. Na cobertura da XP, as empresas registraram avanço anual de 11,7% na receita, 22,5% no Ebitda e 22,2% no lucro líquido.

Os números, porém, precisam ser colocados em perspectiva. Óleo & Gás teve peso importante no desempenho, com crescimento de 79,7% do Ebitda na comparação anual. Excluindo as commodities, os avanços diminuem para 9,6% na receita, 5,2% no Ebitda e 5,8% no lucro líquido.

Além disso, a temporada esteve longe de ser marcada por surpresas generalizadas. No lucro líquido, 41% das empresas superaram as estimativas da XP, ante 45% no trimestre anterior — a menor proporção de surpresas positivas da série histórica da casa, iniciada no 1T23. No Ebitda, 26% ficaram acima das projeções; na receita, foram 29%.

O paradoxo, portanto, não está em uma temporada excepcional de balanços ter sido ignorada pela Bolsa. Está no fato de que, mesmo com crescimento agregado dos lucros e parte das empresas superando as projeções, a reação das ações foi excepcionalmente negativa.

 

Por que até bons resultados encontraram uma Bolsa pressionada?

Os balanços não chegaram a um mercado neutro. Durante a temporada, as ações brasileiras já apresentavam desempenho significativamente inferior ao de seus pares globais.

Entre 21 de julho e 14 de agosto, período considerado pela XP, o Ibovespa recuou 3,7% em reais e 6,7% em dólares. No mesmo intervalo, o MSCI ACWI, índice que acompanha bolsas de países desenvolvidos e emergentes, avançou 3,9% em dólares.

Ao mesmo tempo, houve saída de R$ 15,3 bilhões de capital estrangeiro da Bolsa brasileira, enquanto o aumento da volatilidade eleitoral acrescentava uma nova camada de incerteza aos ativos domésticos.

Nesse ambiente, um bom balanço passou a disputar a atenção do investidor com fatores que iam além da operação das empresas. Uma surpresa positiva podia não ser suficiente para mudar a percepção sobre uma ação, enquanto uma decepção acrescentava mais um argumento para reduzir posições.

 

De 17 setores, 11 caíram após os balanços

A fraqueza também se espalhou por boa parte da Bolsa. Dos 17 setores analisados pela XP, 11 registraram retorno médio negativo no pregão seguinte à divulgação dos resultados.

As maiores quedas ocorreram em Saneamento (-5,4%), TMT — tecnologia, mídia e telecomunicações (-4,2%) — e Saúde (-3,9%). Bancos (-3,7%) e Varejo (-2,8%) também ficaram entre os segmentos mais pressionados.

Na outra ponta, Educação teve a melhor reação, com alta média de 5,8%, seguida por Construção Civil (+2,3%) e Transportes (+2,0%). Papel & Celulose (+1,3%), Agronegócio (+0,8%) e Bens de Capital (+0,6%) também ficaram no campo positivo.

 

Pressão também chegou às expectativas de lucro

A cautela do mercado não ficou restrita ao comportamento das ações logo depois dos balanços.

Ao longo da temporada, as estimativas de lucro por ação para 2026 foram reduzidas em 2,8%, enquanto as projeções para 2027 recuaram 0,9%. O movimento reverteu as revisões positivas observadas nos dois trimestres anteriores.

Considerando as estimativas para os próximos 12 meses dos setores do MSCI Brasil, Utilidade Pública (-5,9%) e Financeiro (-2,5%) tiveram os maiores cortes. Na direção contrária, Consumo Discricionário (+2,5%) e Industriais (+2,1%) apresentaram as maiores revisões positivas.

Fonte: Infomoney


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